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Parecidos, não iguais!

21 Maio 2009

João: maduro, independente e dono do seu nariz. Miguel: carinhoso, dependente e brincalhão. Ainda que com personalidades tão distintas, poucas são as pessoas que os conseguem distinguir. João e Miguel são gémeos e Margarida Ramalho, a mãe, diz que ainda hoje a médica a quem coube a tarefa de a informar que ia ter mais dois filhos «continua a lembrar-se da minha cara de espanto» perante a notícia.

«Assegurou-me que dois eram de certeza, mas tinha dúvidas se não haveria um terceiro! A minha primeira reacção foi um misto de espanto e alegria. Cheguei a dizer que só podia estar a brincar, que a imagem da ecografia devia pertencer à grávida que tinha estado no consultório antes de mim.»

Mãe de Catarina, na altura com três anos, esta era uma gravidez desejada, mas não planeada. «Posso dizer que fiquei feliz, sempre disse que gostava de ter gémeos. Só não esperava tê-los na segunda gravidez».

Trocado o T2 por um espaçoso T4, foi já na casa nova que Margarida Ramalho, na altura com 34 anos, começou à procura de toda a informação disponível sobre gémeos. Com uma primeira gravidez problemática e descobertas novas complicações, teve muito tempo para pesquisar na internet tudo o que havia sobre o assunto.

«Os problemas começaram a partir das 22 semanas, altura em que fiquei internada porque se iniciaram sinais de parto prematuro. Depois acabei por ter de fazer repouso até ao final da gravidez, já que as contracções continuavam.»

Refeita do susto, cedo se apercebeu de que a informação disponível sobre o tema era escassa. «Só encontrava as diferenças entre gémeos monozigóticos e dizigóticos, mas queria saber como dar de mamar, o que fazer quando chorassem com fome ao mesmo tempo, como estabelecer as rotinas diárias, enfim, como cuidar de gémeos», lembra.

Foi esta mesma falta de informação que levou três mães de gémeos (Maria Lopes Cardoso, Clara Paulino e Josephine Carrapato) a criar, há 16 anos, a Associação Grupo Gémeos.

«Quando fiquei grávida das minhas filhas não havia qualquer tipo de informação. Sempre tive imensa bibliografia estrangeira, podia considerar-me uma privilegiada por ler em outras línguas», recorda a professora universitária de Linguística que começou por tentar não sair da sua área profissional ao estudar alguns problemas que, por vezes, surgem associados à linguagem, principalmente nos gémeos monozigóticos, nomeadamente com os códigos que desenvolvem entre si e que nenhum adulto entende.

O Grupo Gémeos não descansou enquanto não viu traduzida para português uma das obras que muitos consideram a verdadeira bíblia: «Gémeos, Trigémeos e Mais», da pediatra inglesa Elizabeth Bryan. «Os primeiros anos da educação dos gémeos são sempre complicados, não dão espaço para muita coisa. As minhas filhas nasceram em 1992 e a Associação só foi constituída em 1996. Nessa altura, uma amiga também ficou grávida de gémeos e sentimos a necessidade de criar um grupo, primeiro para debater as questões - porque é mais fácil perguntar a quem já tem experiência - e colmatar a falta de bibliografia em português», explica Isabel Seara.

Formalizada a associação da qual Isabel Seara é vice-presidente, além da publicação da obra de Elizabeth Bryan, foi igualmente editada uma colectânea de crónicas de Clara Paulino, publicadas mensalmente na revista PAIS & Filhos, e que deu origem ao livro Danças com Gémeos.

«Acho que é interessante porque abarca todas as idades e isso sempre foi um dos aspectos pelos quais lutei: a investigação sobre gémeos em Portugal, tal como as conferências e os colóquios, são todos muito centrados na gravidez e na primeira infância. E porquê? Porque a gravidez de gémeos tem muitos mitos, ou porque vão nascer prematuros ou de cesariana. As minhas filhas nasceram de parto normal, há imensas grávidas de gémeos que têm partos normais», revela Isabel.

Daí encarar o livro «Gémeos, Trigémeos e Mais» como «a bíblia sobre gémeos. Não se limita à gravidez e aos problemas iniciais. Aborda os desafios a nível da educação e da vida depois da primeira infância. É aí que reside a nossa intenção de ajudar, de alertar os pais, os tios, os avós, os educadores e os professores da necessidade de encararem os gémeos como pessoas únicas e singulares».

Texto: Sónia Mendes de Almeida

29 Janeiro 2008

Revista Pais & Filhos